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terça-feira, 7 de outubro de 2014

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Música para os ouvidos e para a cidadania.



Rodoviária. Ponto de ônibus. Metrô. Aeroporto... Podemos concordar que estes espaços fazem parte do nosso dia a dia, afinal, nossa migração e dispersão pelo mundo dependem de passarmos por eles, correto? Entretanto, não criamos nenhum tipo de identidade com estes espaços, pois não há tempo ou necessidade para desenvolver essa relação. Quer dizer, será que não há necessidade?


Faço essa provocação para chegarmos ao conceito de não-lugar, cunhado na década de 90 pelo antropólogo francês Marc Augé. Resumidamente, os não-lugares são espaços transitórios, ditos “lugares de passagem”, com os quais não criamos relações de identidade. Em sua perspectiva, Augé nota uma tendência cada vez maior em deixarmos de dar significado aos espaços e as coisas, de maneira que os locais públicos mais movimentados, onde as pessoas se concentram em maior número, consequentemente tornam-se menos valorizados. Estes espaços, que são de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém, são o que podemos chamar de não-lugares contemporâneos (como o aeroporto, metrô, praças e etc).


Apesar de os não-lugares serem uma realidade, há quem faça, ou tente fazer deles um lugar de fato, recheado de significados, histórias e, principalmente, estabelecendo uma relação de identidade tão particular que não apenas salta aos olhos e ouvidos de quem está ao redor, como também tem o potencial de inspirar o ambiente, fazendo com que esse não-lugar – frio, neutro e insípido – possa ser resignificado, de acordo com a percepção de cada um que transita por ali. Parece bacana? Essa é a conclusão que tiramos do Playing for a Pocket Change, web-serie documental de 10 episódios sobre músicos do metrô de Nova York. São vídeos curtos, entre 5 e 9 minutos, que investigam quem são esses artistas a priori renegados pelas pessoas através da dinâmica do não-lugar, e qual a motivação deles para levar boa música a esses lugares, em troca de contribuição espontânea. O resultado é surpreendente.


O projeto não é exatamente novo (2010), todavia a reflexão se mantém bastante atual: o que nós levamos e deixamos dos (não) lugares pelos quais transitamos diariamente? Como isso tem impactado o mood da nossa vida? Você pára e presta atenção no trabalho do artista de rua? E, principalmente, no que mudaria o senso coletivo de cidadania e de mundo se os não-lugares fossem, de alguma forma, habitados e munidos de diferentes significados? Talvez um pouco de boa a música ajude a pensar:






















terça-feira, 9 de setembro de 2014

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O que tem a ver Movimento Punk, Hambúrguer Gourmet e Gentrification?



“Gentri o quê?” Calma, nós explicamos: Gentrification é um fenômeno observado normalmente em grandes metrópoles, quando um bairro passa por intervenções urbanísticas gerando aumento do padrão imobiliário, elitização cultural, dentre outras transformações que modificam o caráter original da área em questão, o que pode ou não ser bastante problemático do ponto de vista social. Você já ouviu falar alguma vez em processo de revitalização urbana, certo? Provavelmente era um processo que gerou Gentrification.

Um caso que cada vez mais chama atenção no Brasil é a “gentrificação” do Vidigal, no Rio, mas talvez o exemplo recente mais famoso seja Williamsburg, reduto hipster do Brooklyn/New York que este ano foi ferozmente criticada por ninguém menos que Spike Lee.  Porém não vamos falar de Nova Iorque. O cenário é Washington D.C.; o movimento é o punk. Se antigamente a cena tinha motivações principalmente políticas para descarregar toda sua raiva e protesto, hoje o processo de Gentrification na capital americana é o pano de fundo para a resistência do movimento. “O punk não está morto, ele apenas tornou-se local” – é o que garante um artigo publicado semana passada no CityLab.

A afirmação é feita com base no fato de que desde a década passada, as bandas da cena Hardcore Punk de Washington vem abordando o tema da Gentrification de maneira contundente. Mas aparentemente a coisa ficou séria há pouco tempo, quando o Satellite Room, bar da moda (que por tabela simboliza essa transformação cultural fruto da Gentrification em Washington) ironicamente batizou um de seus hambúrgueres gourmet – com 180g de carne, fígado de galinha e um delicioso molho Aioli – de Ian MacKaye, nome de uma das principais figuras do movimento punk no mundo inteiro e líder das bandas Minor Threat e Fugazzi, referências no gênero. Até aí tudo bem, exceto pelo fato de que MacKaye é assumidamente Vegan... Tem noção da treta?

Poucos dias após o lançamento do apetitoso “Ian MacKaye”, acabou sobrando para o Brixton, outro bar de propriedade dos mesmos donos do Satellite Room. Ambos os estabelecimentos foram citados pela banda local Jack on Fire, em uma música que canta algo como “Que-Que-Queimem o Brixton / Mande-os para a desgraça /E então todos nós tomaremos milk-shake no Satellite Room”:



No caso de Washington foi uma pedra atirada no vespeiro punk que fez a cidade reviver dias agitados na sua cena underground. Mas entre músicas de protesto e reações coxinhas, fica a reflexão de que as cidades continuam (talvez com maior fôlego ultimamente) influenciando a maneira como os artistas vivenciam seus trabalhos, trazendo propósito para a música, os movimentos e a arte em geral. Nas particularidades de cada contexto, surge a possibilidade  de uma produção artística que realmente faça sentido... Já pensou que bacana uma cena musical em Floripa falando sobre mobilidade urbana ou ostentação em Jurerê no verão?